À mesa da amante fiel

“Manuel de Lima Bastos é uma figura icónica de Sernancelhe”

O antigo Ministro da Agricultura Arlindo Cunha, convidado para apresentar a obra “À mesa da amante fiel”, da autoria de Manuel de Lima Bastos, foi claro na sua apreciação: “Quando um dia se falar das pessoas que dedicaram o seu trabalho à promoção de Aquilino Ribeiro, Lima Bastos estará em lugar destacado”. Reconhecendo que o autor é “uma figura icónica de Sernancelhe”, elogiou o livro, a sua qualidade e felicitou o Município por persistir no apoio à literatura e à cultura. “À mesa da amante fiel” foi apresentado no Auditório Municipal ao final da tarde de 6 de abril.

Não sendo um receituário de cozinha nem um tratado de gastronomia, o livro de Lima Bastos fala das mais diversas incidências culinárias, assumindo o autor a admiração por dois dos maiores vultos da cozinha, um português e outro espanhol: Domingos Rodrigues, natural de Vila Nova de Paiva, que conheceu através da obra de Aquilino Ribeiro, e Alvaro Cunqueiro, galego, autor da obra “La Cocina Gallega”.

“Erudição, métrica, argúcia e magistral perícia na arte de escrever” foram qualidades apontadas por Arlindo Cunha a Manuel de Lima Bastos, evidenciando ainda “as personagens e os enredos, com uma inevitável pitada de crítica e sátira, tudo bem condimentado com molho picante, como se fala na linguagem culinária”. Complementou ainda a sua apresentação referindo que o autor é um “narrador de eleição”, que transporta para este livro a sua marca e percurso de vida.

Reconhecido pela análise detalhada que Arlindo Cunha fez ao seu livro, Manuel de Lima Bastos revelou que “se não fosse o apoio persistente do Município de Sernancelhe à publicação dos meus trabalhos, sobretudo ao redor de Aquilino Ribeiro, não estaríamos hoje aqui”. Por isso, acrescentou, “não cumpro mais do que a minha obrigação de manter esta ligação a Aquilino Ribeiro, que vem deste a infância, quando o meu pai me ofereceu como presente de aniversário o romance “Cinco Réis de Gente”.

Explicando os contornos em que surgiu o livro “À mesa da amante fiel”, em particular à gastronomia e culinária do nosso País, confirmou que “é nas zonas mais pobres que se mantém a autenticidade da cozinha tradicional, como Trás-os-Montes, Alentejo e Beira”. Na sua obra procurou ainda evidenciar que “cozinhar bem com produtos mais pobres é o mais difícil”, pretendendo demonstrar como “na pobreza de tantas zonas de Portugal é possível fazerem-se verdadeiros milagres na cozinha”, que redundam em grandes pratos, em referências culinárias que explicam a nossa identidade.

Quanto a Aquilino Ribeiro, que guia Lima Bastos durante a obra “À mesa da amante fiel”, o trabalho prossegue com um último livro, este dedicado à sensualidade e erotismo da obra do autor de “Terras do Demo”.

A cerimónia ficou concluída com a intervenção do Presidente da Câmara, Carlos Silva Santiago, que demonstrou a sua satisfação por Sernancelhe receber a apresentação de mais uma obra de Lima Bastos: “Graças a si, não erro se afirmar que devemos estar perto da dezena de livros que aqui nos trouxe. Livros sempre ricos, inspirados ou motivados pelo nosso Mestre Aquilino Ribeiro, que aqui foram analisados por personalidades nacionais como o Eng.º Aquilino Machado, o Bispo D. Manuel Martins, o então Bastonário da Ordem dos Advogados, Dr. Marinho e Pinto, o Professor Eugénio Santos e, desta vez, o Professor Arlindo Cunha, uma personalidade que, tal como o Dr. Lima Bastos, é um amigo de Sernancelhe, que muito nos ajudou na promoção da Castanha e esteve, desde 1992, muito próximo do nosso Concelho, quer enquanto Ministro da Agricultura quer como Presidente da Comissão de Coordenação Regional do Norte. Por isso mesmo, no próximo 25 de abril, Sernancelhe terá a oportunidade de o distinguir com a Medalha de Honra”.

Sobre o conteúdo de “À Mesa da Amante Fiel”, Carlos Silva elogiou a coragem do autor em dedicar a sua escrita à gastronomia, homenageando, mais uma vez, “Aquilino Ribeiro, mas também a arte culinária das diferentes regiões, a identidade que define os povos e, no fundo, o livro é o reconhecimento de todos quantos fazem da ruralidade uma forma de preservar antigas tradições culinárias”.

A terminar a sua intervenção, e confirmando o interesse da obra “À mesa da amante fiel”, o Presidente da Câmara citou Manuel de Lima Bastos: “É difícil constatar que alguns factos relatados nesta obra pouco ou nada têm que possa recomendá-los, quer no tocante à preservação da parte física do leitor neste mundo, quer no que diz respeito ao cuidado da sua alma que se prepara para chegar à alfândega do outro”.