Editado em Portugal o livro “A arte do chá”, do sernancelhense padre João Rodrigues

Editado em Portugal o livro “A arte do chá”, do sernancelhense padre João Rodrigues “Tçuzu”, o jesuíta que foi uma referência no Japão do século XVI

A história que envolve o Padre João Rodrigues é enigmática e grandiosa. Enigmática porque, apesar de não restarem dúvidas de que nasceu em Sernancelhe, não se sabe exatamente se foi no ano de 1561 ou 1562, em que freguesia em concreto, como terá ido para o Japão ainda tão novo e como terá ingressado na Companhia de Jesus. Mas a sua história é, sem dúvida, grandiosa e, sobre isso, abundam provas, como por exemplo saber-se que foi da sua autoria a primeira gramática da língua japonesa, ainda hoje motivadora de estudo e adoração em terras nipónicas. Mas João Rodrigues escreveu também sobre o chá, e é precisamente “A Arte do Chá” o livro que recentemente foi editado em Portugal, com a chancela da Livro de Bordo e edição de texto de Rui Manuel Loureiro.

Quando João Rodrigues escreveu sobre “A arte do Chá” estávamos no século XVI e, por isso, o Rui Manuel Loureiro descreve no texto introdutório do livro agora dado à estampa que “A Arte do Chá de João Rodrigues Tçuzu merece certamente este nova edição, não só pelo seu valor intrínseco, enquanto documento verdadeiramente único sobre o diálogo civilizacional que no século XVI teve lugar entre a Europa e o Japão, como também pelo facto de não estar actualmente disponível nenhuma edição em português da História da Igreja do Japão, de que este extracto faz parte”.

Rui Manuel Loureiro refere ainda que “(…) não surpreende que João Rodrigues Tçuzu, um grande conhecedor do mundo japonês, tivesse decidido incluir uma desenvolvida secção sobre a arte do chá na sua História da Igreja do Japão. De resto, ele próprio era um grande apreciador da bebida e nos seus aposentos na residência jesuíta de Nagasaki (Japão), para escândalo de alguns dos seus confrades mais conservadores, chegara mesmo a improvisar uma sala especial para a cerimónia do chá”.

Esta edição, que teve por base a o manuscrito existente na Biblioteca do Palácio Nacional da Ajuda, é, segundo o professor Rui Manuel Loureiro, a cultura do chá no Japão e na China no século XVI “descrita pela pena daquele (Padre João Rodrigues) que para melhor entender o espaço onde vivia, dedicou grande parte da vida a aprender e estudar a língua e cultura japonesas”.

UM SERNANCELHENSE COM UMA HISTÓRIA GRANDIOSA

Nasceu em Sernancelhe em 1561 ou 1562. Com apenas 14 anos saiu de Portugal em direção à Índia. Em 1580 chegou ao Japão. Ao serviço da Companhia de Jesus dedicou-se ao ensino da gramática e do latim. Alguns anos mais tarde concluía os estudos em Teologia em Nagasaki. Foi a Macau para ser ordenado sacerdote e, tendo regressado ao Japão, tornou-se intérprete, servindo como agente intermediário nas compras feitas às naus estrangeiras. Conhecido como comerciante, diplomata e político, Padre João Rodrigues acabaria expulso do Japão no ano de 1610, por razões ainda não esclarecidas. Regressado a Macau, iniciou uma série de investigações com vista ao conhecimento das origens das comunidades cristãs ali estabelecidas desde o século XIII. Considerado um clássico para o conhecimento do Japão, Pe. João Rodrigues foi o autor da primeira gramática da língua japonesa e escreveu a “História da Igreja no Japão”. Apontado como um vulto da cultura universal, faleceu em Macau em 1633, sendo ainda hoje motivo de estudo e um símbolo do Japão.