COLCHAS DE SERNANCELHE                 

                                                

O território que o concelho hoje compreende foi povoado, decerto, em tempo neolítico. Uma economia assente na pastorícia e na agricultura trouxe depressa a utilização de fibras de origem vegetal e animal por uma tecnologia que lentamente evoluiu desde os teares de rudimentar engenho a que pertenceram os pesos do remoto castro de Murganho sobranceiro às Arnas, até aos dias de hoje.ColchaA roca e o fuso e o tear ainda, ficaram sendo um símbolo de mulher em terras de Sernancelhe, até tempos ainda recentes. Fiava-se mais fino o linho, introduziram-se as novas fibras de algodão que se tornou familiar, a lã churra das ovelhas trocava-se por lã de camelo, lavada e mais leve, vinda da fábrica, mas a vida seguia os antigos ritmos, as estações mediam o tempo e definiam os trabalhos.

Linhos e lãs vestiam os corpos dos Homens com trajes de trabalho que não eram mais que trajes de festa deitados a cote. Linhos e lãs eram agasalho, necessário na liberdade do dia, necessário para guardar o calor e a intimidade na interminável noite de inverno.

Aqui assenta a génese da manta de burel para cobrir o leito, grosseira e monocromo primeiro, mais tarde enfeitada com quadrados tão simples como as duas cores de lã das ovelhas.

Aqui assenta a génese de todas as coberturas de cama frustemente se diversificando na combinação das matérias-primas que a história não fez variar muito.

A colcha tradicional é apenas uma cobertura de prestígio no âmbito de uma sociedade eminentemente agrária e pastoril. Utiliza, tal qual a manta, a lã e o linho como matérias-primas, às vezes só o linho e, morfologicamente é tão só, como a manta, o rectângulo que cobre a singeleza do leito. Simplesmente um processo de elaboração mais demorado parece coerentemente corresponder à criação de um objecto destinado a cumprir uma pragmática função tanto quanto responde a uma intenção artística.

O concelho de Sernancelhe teve, antigamente, um fortíssimo vigor no domínio da tecelagem . Hoje poucos teares sobrevivem.

Dois pólos ganharam fama a devido à singularidade do trabalho das suas tecedeiras - As Arnas a que se liga o legendário nome de Carminda gomes, falecida em 1972 e Chosendo onde trabalha ainda, vigorosa, Erides Amante.

Mestras no ofício de tecer tecidos lisos tão finos como se destinados a corte de rei dedicaram-se mais à tarefa de tecer as colchas de linho e de lã de formoso efeito que cobriram em dias de festa as camas dos lavradores, encheram arcas de enxoval de seus filhos, foram aumentar o património de fidalgos e escrivães ou serviram de presente para homens do Governo .

As matérias-primas utilizadas - o linho, a estopa e o algodão e a lã chegavam geralmente à tecedeira prontos para o trabalho.

O linho era comum ser entregue em novelos que a tecedeira urdia e de que fazias encher canelas.

A lã, menos vezes vinha pronta para a obra. E em muitas ocasiões ela própria teve que fiá-la , dobá-la, lavar as meadas que coravam em lameiras e enxugavam sobre o telhado baixo ou nos muros de quintais.

As cores utilizadas enquadravam-se em limitada gama de cores simples mais ou menos densas, jamais se ultrapassando os tons de um vermelho cor -de- vinho , de laranja, do verde e do preto.

Em relação aos padrões, é habitual a tecedeira responder a uma encomenda que a sua cliente bastas vezes lhe sugere, os feitios que gostaria de ver apostos na colcha - rosetas ou barra de rosas, florões ou quadradinhos, nome e data de nascimento de um familiar que quer lembrar, etc.

O meio utiliza feitios singulares com regularidade, com a roseta o quadrado, o losango, o florão, impondo-se estes motivos sempre como harmoniosos conjuntos que se configuram a um largo campo de xadrez, um crivo de minúsculos losangos, uma rede apertada e esbelta, mas utiliza também faixas ou barras de motivos que se repetem de forma simples - espinhas, trevos, bicos ou cambos, coroas florais ou compósita - espinha flor - espinha, etc...

Predomina o elemento geométrico e floral mas surge por vezes um motivo animalista - cordeiro, ou elemento emblemático, a coroa do rei, num e noutro caso ocupando um largo espaço central limitado por faixas de motivos diversos.

A coroa do rei é motivo de maior frequência , mas jamais se banalizou.

É de referir que no passado dia 15 de Outubro de 1999 a D. Irides, natural da Quinta das Olgas, freguesia de Chosendo, participou no Programa Praça da Alegria a convite do seu apresentador Manuel Luís Goucha, com o objectivo de explicar a todos os espectadores, a teia de segredos das suas colchas, hoje verdadeiras peças do mais apreciado artesanato." Comecei desde pequenina e tenho trabalhos espalhados por diversos lugares do mundo. Mas já não é uma actividade rentável, por ser tudo manual e levar muito tempo e depois as fábricas, apesar de não fazerem igual, fazem mais barato e as pessoa preferem.

Fruto de uma tradição multissecular, os trabalhos, os trabalhos em linho constituem mesmo nos nossos dias, artigos obrigatórios dos enxovais das meninas.

Se antigamente havia muitos teares e tecedeiras, distribuídos pelas diferentes freguesias do nossos concelho, parece-nos que a D. Irides é das poucas sobreviventes, não obstante ela ter ensinado vária raparigas e continuar disponível a passas o testemunho a quem quiser aprender. É considerada uma das embaixadoras locais da tecelagem.

 

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