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O povo fez do acto de comer e de beber um acto de cultura.

Os actos de comer e de beber marcavam a identidade de uma festa cíclica ( Natal, carnaval ou Páscoa), de uma efeméride (baptizado ou casamento), de um trabalho recíproco (cavas, ceifas ou vindimas), de uma matança de porco festa de orago, romaria ou feira de ano.

    Os frutos da terra, as águas da fontes, as aves de criação, o porco caseiro, o cabrito do rebanho, a caça do monte eram e sõa ainda singular matéria-prima que pouco vale se não houver o saber antigo da cozinheira. Que de tudo há por ali.

    De suprema excelência os enchidos (o salpicão e a chouriça), o presunto, a bola de carne, uma fêvera tenra assada na brasa, batatas a murro assadas em forno de lenha, pão de centeio. E vinho trazido em púcaro de barro ou velhoArrodoce.jpg (5060 bytes) jarro de vidro, borbulhante e fresco da adega térrea. Ou então uma garrafa de "Terras do Demo", vinho de marca que proveio decerto de uma das encostas soalheiras do concelho.

    O inverno fica farto de castanhas cozidas e assadas, divinas sempre, e de maçã assada, de nozes e avelãs que crianças partem, brincando.

Saberes de avós, exercício de noivas exemplares, jeitos de mãos de antigas monjas em seus conventos inventaram doçaria vária boa de saborear - sopa doce para o dia de Carnaval, filhós grandes e gostosas para o dia de Natal, rabanadas largas para merendeiro de romaria, arroz doce e leite creme torrado sempre que fôr festa ou houver amigos, cavacas (honra das recolhidas de Freixinho) que sempre foram folar de Páscoa e presente para médico ou fidalgo.

    No Convento da Tabosa as monjas inventaram os fálgaros, que não são doces, mas que a gente cobiça.

    E há nesta terra o jeito de bem receber, uma porta sempre aberta, mais um prato posto na mesa, o lavrador é como um patriarca bíblico ou um hospedeiro helénico.

    Que mais é preciso para vir a Sernancelhe?

    Se almoçar no restaurante, sozinho ou com amigos, diga à dona que quer um prato da terra. E um dia voltará, de certeza!...  

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