A frase que dá título a esta reportagem pertence ao mendigo que no livro “Terras do Demo”, de Aquilino Ribeiro, se perfilava junto a uma das paredes do Colégio da Lapa para receber uma esmola dos romeiros. Seria assim em finais do século XIX, princípio do século XX, quando “rompiam ranchos em algazarra” pela principal rua do Santuário. Reuniam-se naquele local sagrado por causa da devoção à Senhora da Lapa e também pela festa que ali se fazia e que não tinha par.
Por todo o lado, descreve-nos Aquilino Ribeiro, havia grande frenesim. O ruído misturava-se com os cheiros e com as cores, o sentido religioso colocava a Lapa no mapa de Portugal.
Passaram décadas mas por estes dias parece ter tudo voltado a ser como antigamente. Esse regresso ao passado deveu-se à Feira Aquiliniana, evento organizado pela Câmara Municipal de Sernancelhe, que decorreu nos dias 30 e 31 de Maio. Dois dias, aliás, de calor abrasador, propícios ao convívio e à festa.
O sucesso do evento deve-se à sua estrutura e ao sentido que lhe foi dado aquando da sua criação: homenagear Aquilino Ribeiro, o meio onde nasceu e estudou, a região onde se inspirou e de onde despontou para o Mundo. No entanto, impunha-se que se retratasse o escritor nascido no Carregal de forma fiel e verdadeira. E essa tem sido, de facto, a melhor homenagem que o Concelho de Sernancelhe poderia fazer a este nosso ilustre conterrâneo.
E se dúvidas houvesse quanto à qualidade do evento Feira Aquiliniana, bastava passar pela Lapa nos dias 30 e 31 de Maio e participar nas diversas animações, visitar as barraquinhas, confraternizar, passar um bom bocado num local de tranquilidade, há muito habituado à festa.
Pela avenida principal do santuário, expostas ao sol tórrido da tarde, as barraquinhas, também elas decoradas a rigor, tinham um pouco de tudo para vender. Isso mesmo foi constatado pelo Presidente da Câmara Municipal de Sernancelhe, José Mário de Almeida Cardoso, pelo Vice-Presidente Carlos Silva Santiago e pelo Vereador Carlos Santos, que cumprimentaram os expositores presentes e quiseram saber o que tinham para vender e como estava a ser o negócio. Por entre acessórios decorativos para homem e mulher, peças para a casa, esculturas de granito acabadas de criar pelos nossos talentosos artistas da pedra, queijo da Lapa, azeite, pão… havia tantos e tantos atractivos de fazem cair em “tentação” qualquer devoto mais cioso dos seus misteres religiosos!
Apesar de o momento ser de crise, por entre os vendedores o negócio parece ter superado as expectativas. Foi pelo menos isso que constataram no momento de fazer o balanço da Feira Aquiliniana.
A par das barraquinhas, que efectivamente decoram o já de si bonito espaço do Santuário, a animação é uma das marcas deste evento. De todos os lados, e por toda a Feira, há música e etnografia para enaltecer a região e valorizar as tradições. Destaque para a malhada interpretada pelo Rancho Folclórico de Sernancelhe, e para as tradições agrícolas evocadas também pelo Rancho Colarni, de Arnas.
Lembrar ainda o grupo de bombos de Unhais da Serra, os Tocadores de concertinas da região, as concertinas das Terras do Demo, as desgarradas patrocinadas pelo Sr. Agostinho da Ponte do Abade, entre tantos outros momentos de grande animação.
No campo das “palhaçadas”, que dizer das “Marias Malucas”, permanentemente agitadas e a agitar quem lhes aparecia pela frente. Conversa puxa conversa, lá vão dando “uma no cravo e outra da ferradura”, a quem lhes tenta responder com a mesma moeda. Incorporando duas bêbedas, muito amigas e galhofeiras, saltam à vista de quem as vê e lhes escuta a conversa.
A animação de rua teve nos Marcomanos, de São João da Pesqueira, preciosos actores e actrizes que constantemente simulavam estarem zangados para captarem a atenção do público. Hilariantes, também pela forma como estavam vestidos e pela expressividade de todos os elementos.
Ainda que estivesse lá o pequeno palco de madeira, lembrando uma cozinha tradicional de uma casa rural da Beira, a Escola Profissional de Sernancelhe foi fazendo teatro um pouco por todo o recinto do Santuário (ver texto ao lado), tendo-se cotado como a grande surpresa desta edição da Feira Aquiliniana.
De Miranda do Douro vieram as Pauliteiras e os Pauliteiros. Vestidas a rigor, as pequeninas desfilaram pela Feira até ao adro frontal à Igreja. Aí interpretaram as danças tradicionais daquela região transmontana. Seguiram-se os rapazes, já com mais energia e mais ritmo, mas com igual esmero.
Fica marcado encontro para 2010, na Lapa.