Bispo D. Manuel da Silva Martins morreu este domingo

Bispo D. Manuel da Silva Martins morreu este domingo, 24 de setembro. Concelho de Sernancelhe distinguiu-o em 2014 com a Medalha de Honra do Concelho


D. Manuel Martins, bispo de Setúbal entre 1975 e 1998, morreu este domingo, aos 90 anos. Conhecido pela sua ação de denúncia das situações de fome e de injustiça social, foi distinguido, em 2014, pelo Concelho de Sernancelhe, durante as comemorações do 25 de abril, com a Medalha de Honra, tendo mantido com Sernancelhe uma relação de grande proximidade e amizade materializada pelas inúmeras vezes que nos visitou e nas diversas manifestações culturais em que deu o seu extraordinário contributo. Ficou célebre para nós a sua frase: "Nunca vi o Dia da Liberdade celebrado com tanta fidalguia e verdade como em Sernancelhe".

Durante a referida cerimónia em que Sernancelhe homenageou D. Manuel Martins, e que encheu por completo o Salão Nobre dos Paços do Concelho, D. Manuel Martins, dono de uma capacidade comunicativa admirável e de uma interação constante com quem o ouvia, questionou: "Porque estou aqui? - Verdade que desde a primeira hora gostei de Sernancelhe, joia preciosa incarnada na nossa mais que bela Beira Alta. Verdade que me deixei encantar pela simplicidade e transparência deste povo trabalhador e sério de Portugal".

Da história desta homenagem a D. Manuel da Silva Martins constou ainda a inauguração da exposição "D. Manuel Martins, um Bispo de Todos", no Centro Municipal de Artes, cuja apresentação ficou a cargo de dois amigos de longa data: D. Manuel de Lima Bastos e Coronel Pires Veloso, o primeiro um apaixonado pela vida e obra de mestre Aquilino Ribeiro; e o segundo um Capitão de Abril, determinante na conquista da Liberdade em Portugal e na consolidação da democracia durante o período em que comandou a Região Militar do Norte.

A relação de D. Manuel Martins com Sernancelhe redundou numa grande amizade, ficando memoráveis as intervenções que fez, quer sobre o dia da Liberdade, quer sobre mestre Aquilino Ribeiro, estas motivadas pelo devoto admirador do escritor e amigo Dr. Manuel de Lima Bastos. Deu contributo inestimável nas comemorações do 25 de abril, em 2012, nas comemorações do 25 de abril, em 2013, particularmente numa palestra ao lado de Marinho e Pinto, e participou na apresentação das obras de Manuel de Lima Bastos “Retrato de Aquilino – Pintura sobre Palavras” e “À Sombra de Mestre Aquilino na Casa Grande de Romarigães”, este ao lado de Miguel Veiga.

Como Concelho do Interior de Portugal, Sernancelhe sempre se reviu no sentido social de D. Manuel Martins, na forma simples e desinteressada como estendeu a mão aos necessitados, como deu voz aos ostracizados, como sempre subiu ao monte mais alto para alertar para injustiças e desumanidades.
Foi uma das marcas que deixou quando em 1975, em pleno Verão Quente do PREC, e tendo sido nomeado 1º Bispo de Setúbal, enfrentou, ao lado da população, um clima social marcado pela instabilidade e por todo o tipo de carências, tendo-se envolvido ativamente na vida daquele povo, sempre com enorme sentido de serviço, sobretudo para com os mais carenciados e marginalizados, de tal maneira que granjeou reconhecimento nacional.

Também enaltecemos o seu papel ativo na questão de Timor-Leste, a intervenção na sede da Organização das Nações Unidas, alertando para o flagelo daquele povo, pelo qual Sernancelhe organizou uma Marcha da Paz em 1999, tendo recebido, em abril de 2004, a visita do Comandante Xanana Gusmão.
Admiramos ainda o brilhantismo da sua ação como Bispo de Setúbal, reconhecemos o exemplo que a todos deu no campo religioso e social, percebemos o sentido da sua incansável busca pela dignificação do ser humano, a luta empenhada e destemida por causas sociais que os poderes instituídos tendem a ignorar, revemo-nos nos valores da vida que sempre praticou e que, afinal, são pares dos valores sonhados com abril, mas que, quatro décadas depois, a liberdade isoladamente ainda não concretizou plenamente.

D. Manuel Martins era uma figura ímpar da Igreja em Portugal e um exemplo que a todos inspirava. Sernancelhe tinha-o entre os seus maiores e considerou-o seu concidadão, devendo-lhe momentos de grande brilhantismo e intelectualidade, reconhecendo-lhe o quanto contribuiu para o engrandecimento da nossa terra.

Assim, em sinal de homenagem, a bandeira do Município de Sernancelhe foi colocada a meia haste e, a todos os familiares e amigos de D. Manuel da Silva Martins, apresentamos sentidas condolências.

Recordamos ainda as imagens que explicam a enorme relação de amizade estabelecida, ao logo dos anos, entre Sernancelhe e D. Manuel Martins.