FEIRA AQUILINIANA TROUXE MILHARES DE PESSOAS À LAPA

 

 

 

 

 

“No recreio da tarde, uma revoada de rapazinhos, pouco mais ou menos da minha idade, precipitou-se pela camarata vindos uns das aulas, outros da sala de estudo. Em breve achei-me no meio deles como em pleno arraial. (…) Cá está o novo! (…) Éramos entre cinquenta e sessenta rapazinhos, e no recreio fazíamos guerras assanhadas e quebrávamos denodadamente a pinha uns aos outros como nunca. Pulmões lavados pelos mil metros de altitude, comíamos carne de cabra de manhã, ao meio-dia e à noite; e apanhávamos palmatoadas pela medida grande, louvado seja Deus, a qualquer hora”.

                No meio do Santuário da Lapa fica ainda hoje o Colégio. Foi lá que Aquilino Ribeiro estudou e se inspirou para descrever, no livro “Uma Luz ao Longe”, de 1948, um episódio da sua vida. Mais de meio século depois, tudo parece tal e qual a descrição do Mestre: o Colégio continua imponente, a Lapa permanece ventosa e a fé coordena o dia-a-dia daquele local.

                Tão vasta como a obra do Mestre é o conjunto de descrições alusivas à Lapa. São momentos que explicam tudo sobre uma comunidade que cresceu de braço dado com as dificuldades, a míngua e a batalha diária pela sobrevivência. Gente que, ainda assim, sempre soube ser alegre, festiva e -  qualidade das qualidades - sabia e sabe receber como ninguém.

                A Lapa é portanto, o cenário perfeito para a realização da Feira Aquiliniana. Pelo segundo ano consecutivo, a Câmara Municipal de Sernancelhe pretendeu homenagear o escritor nascido na freguesia de Carregal em 1885 e também a localidade que é hoje um dos maiores Santuários Marianos do país.

                Durante dois dias, a Lapa mergulhou nas páginas dos livros de Aquilino e brindou-nos um mar de gente, muitas barraquinas de produtos regionais, animação e boa disposição.

                No espaço amplo do Santuário, 45 expositores de todo o país mostraram, lado a lado com o espírito religioso do local, o resultado do trabalho que só as mãos sábias dos artesãos conseguem criar. A gastronomia, encimada pelos fálgaros de Carregal, passando pelas cavacas de Freixinho, o doce de Teixeira, os biscoitos caseiros e o inigualável pão da Lapa, foi o sector que mais se destacou e que mais representantes teve no certame Feira Aquiliniana. Pela primeira vez a castanha de Sernancelhe esteve também em grande destaque com os doces e compotas do curso realizado na Escola Profissional.

                A animação esteve a cargo de diversos grupos, oriundos de diferentes pontos do país e com sonoridades distintas, mas todas elas enquadradas na época. A tradicional “Malhada”, interpretada pelo Rancho Folclórico de Sernancelhe, marcou o primeiro dia de festa.

                Na jornada de 5 de Junho, coube ao Rancho Folclórico de Leomil a animação da tarde. Ininterruptamente, estiveram em actuação grupos de música tradicional portuguesa, que passearam o som por todo o recinto.

                “Os Cucos Malandros”, uma associação cultural e recreativa de Tabosa da Cunha, fez uma das suas primeiras aparições públicas e encantou as centenas de pessoas que enchiam a avenida principal da Lapa.

                Novidade este ano foi a presença de cavalos e uma charrete que proporcionou pequenos passeios a dezenas de pessoas, encantando principalmente crianças.

                O teatro também esteve presente, cabendo as interpretações ao grupo “O Malhadinhas”, de Moimenta da Beira. Em diversos pontos da feira representaram excertos de obras de Aquilino Ribeiro.

                A Feira Aquiliniana coincidiu, este ano, com as novenas para o 10 de Junho. No Domingo, centenas de pessoas que vieram à Lapa propositadamente para participarem em celebrações religiosas foram brindadas com uma aldeia diferente, mais colorida, um pouco mais barulhenta, mas ainda assim acolhedora e amiga dos peregrinos.

          

 

 

 

 

 

“CINCO RÉIS DE GENTE”, A BARRAQUINHA MAIS

CONCORRIDA DO CERTAME

 

 

 

 

 

 

“Já mal se rompia. Lá estavam as vareiras, com as chapeletas na caraminhola, de mangas arregaçadas diante das barricas, sobre que abririam as pernas para verter águas, quando o peixe fosse mister de molhanga. Atrás delas, os burros dos festeiros cismavam com o relvão saboroso do Maio, que já lá ía. Os adjuntos, mormente à porta da Miquelina, que não precisava pôr ramo, de caneca alçada beberricavam. Para a outra banda, os romeiros de longes terras empilhavam-se nas escaleiras do pelourinho e as suas abas, nas cercanias da velha cadeia, tão velha que já nem se sabia quando guardara homem”, Aquilino Ribeiro (Terras do Demo).

                Estávamos em 1919 e a Lapa já vivia o frenesim dos tempos modernos. Muita gente para trás e para a frente, pessoas movidas de fé a entrar na igreja para cumprir tributos religiosos, visitar a gruta e o sardão, entusiásticos pelas comidas tradicionais a encher até à porta os estabelecimentos da aldeia. Enfim, a Lapa era, tal como hoje, ponto de encontro, local de festa, centro de romagem.

                À Lapa e ao Mestre Aquilino Ribeiro a Câmara Municipal de Sernancelhe quis dedicar uma festa especial, uma homenagem ao escritor que tão bem descreveu o concelho de Sernancelhe, que quis e conseguiu perpetuar as gentes, os locais, as paisagens, o requinte gastronómico, a cultura e as vivências deste povo. Por outro lado, conseguiu-se transformar a Lapa no centro aglutinador que, em romaria, recebe gente de todos os pontos do país, desejosos de contemplar os monumentos, os recantos do Santuário e a história de uma comunidade humilde, mas grande de carácter.             

                Mas se o livro “Cinco Réis de Gente” é a história da vida de Aquilino Ribeiro, a barraquinha com o mesmo nome é, sempre que há Feira Aquiliniana, a mais concorrida. Organizada pelo Conselho Directivo dos Baldios e pela Junta de Freguesia de Carregal, a barraquinha é, muito certamente, uma das mais genuínas do certame. É lá que são servidos os fálgaros (iguaria descrita por Aquilino), o vinho, o pão tradicional, o presunto, a saborosa chouriça, a sardinha assada, enfim, uma panóplia de produtos realmente típicos que faziam água na boca a qualquer transeunte.

                Não admira, portanto, que o balcão estivesse sempre apinhado de gente de panelo de alumínio em riste. Porém, Carregal consegue dar mais brilho à Feira Aquiliniana com o detalhe que ostenta a sua barraquinha. Os pipos, o cortiço, os chocalhos dos animais, as arcas, os panos de linho, enfim, tudo tal e qual antigamente.

 

MAIS DO QUE VENDER, NA LAPA TODA A GENTE CONVIVE

A II edição da Feira Aquiliniana, no Centro Histórico da Lapa, abriu oficialmente com a visita que o Presidente do Município, José Mário Cardoso, efectuou pelas barraquinhas. Distribuindo cumprimentos, o autarca provou as iguarias de cada stand e trocou impressões com os artesãos. A pergunta que o Presidente fazia era quase sempre a mesma: “Que tal o negócio?”.

            As respostas, essas, eram difusas. Havia quem confessasse ter sido uma boa aposta, outros justificavam o insucesso económico com a crise que se abate sobre o país. Regra geral, a Feira Aquiliniana foi positiva para todos os expositores, porque, apesar de não terem tido resultados brilhantes, conseguiram estabelecer contactos importantes.        

            Esta e outras conclusões foram retiradas do inquérito realizado na recta final da Feira. A maioria dos expositores entende que o Centro Histórico da Lapa é o local ideal para a realização do evento, a promoção e divulgação foram bem realizadas e o trabalho organizativo foi bom.

            Porém, grande número de expositores sugere alteração das barraquinhas, principalmente das destinadas a produtos como queijo, pão, cavacas, etc.

            Curioso é o facto de a Lapa ser um ponto de referência para quem pretende dar a conhecer o seu trabalho. Inquiridos sobre os motivos que os levaram a participar na Feira Aquiliniana, grande parte dos participantes respondeu “por motivos económicos”, para “divulgar os produtos”, devido à “localização da Feira” e “o convívio”.

            Ora, diz José Mário Cardoso, Presidente da Câmara Municipal de Sernancelhe, “era isto mesmo que pretendíamos alcançar com esta iniciativa: chamar os artesãos, dar-lhes uma oportunidade para mostrarem o seu trabalho, garantir-lhes uma oportunidade para estabelecerem contactos com clientes e permitir que vendam os seus produtos e retirem daí uma forma de subsistência”.

            Por outro lado, acrescenta, “a Lapa e este magnífico Centro Histórico dão brilho à festa e enquadram-na de forma irrepreensível. Mais do que o ano passado, julgo que a Feira Aquiliniana cumpriu os objectivos delineados e, mais importante, trouxe mais-valias para os expositores e para os comerciantes locais”.